Esta é uma estória fictícia, mas que bem poderia ser real, pois está inclusa nas leis naturais de Deus, nas leis de física de ação e reação
REDENÇÃO
Caia a chuva em grossos pingos, que com a força do vento fustigava o corpo magro e trôpego, que cambaleava sem destino, sem rumo, perdido em seus pensamentos, que teimavam em se repetir a todo momento. Não, ele não queria pensar, ou melhor, queria esquecer o tormento que sua vida se tornara.
A natureza da tempestade presente, ainda reforçava mais esse sentimento de culpa, de remorso, pelo ato impensado.
E pior, ele talvez não tivesse a clareza da situação, mas dentro de si havia a certeza de que morrera, ou melhor, como dizem os espíritas, desencarnara. Porém, sentia-se confuso, pois achava que com a morte tudo terminaria e restaria só o silêncio.
Era estranha a sensação de saber que o ato tresloucado do suicídio lograra êxito e a morte era sua companheira ao mesmo tempo que sentia a vida pulsando dentro de si e ao seu redor.
Sim ele tivera a coragem de puxar o gatilho contra o próprio crâneo, para covardemente fugir da vida, se esconder dos problemas, que ele mesmo havia criado.
Não conseguia ver ninguém, pois a escuridão que o cercava era densa e pegajosa. Sentia um cheiro fétido de sangue coagulado, que escorreu do buraco em sua cabeça, por onde a bala havia trespassado.
Mesmo chovendo a cântaros a água não limpava seu ferimento, nem tampouco a nódoa de sua alma. Seus pés pareciam presos a uma lama, embora caminhasse em uma calçada suja.
Vez em quando ouvia choros pungentes, lamentos tristes, gritos de dor; dor que não era física, mas d’alma.
Não conseguia ver de onde, ou quem estava sofrendo tanto, pois as trevas tragavam toda e qualquer luz. Mesmo assim, ele seguia em frente, caminhando com um peso insuportável em suas pernas.
Agora ouvia risadas sarcásticas, que logo se tornaram gargalhadas zombeteiras. Esses risos, não lhe davam vontade de também rir, ao contrário passou a sentir medo, um medo monstruoso, que tomou conta de todo seu ser. Tentou correr, mas foi impossível, pois sentia que aqueles que riam, tinham o poder de acorrentá-lo e tortura-lo com seu medo e com escárnio.
Lembrava agora das lições, quando adolescente, do grupo espírita que frequentava, mas que abandonara para não se sentir cobrado por seus atos,
Recordava haviam lhe falado de um tal Umbral, lugar, que os devedores morais iam.
Ele então concluiu que estava no Umbral, um lugar que ele construiu, plasmou, com seu remorso, porque um juiz implacável, chamado Consciência, começou a julgá-lo e nada fugia, nenhum detalhe de sua vida escapava do crivo da Consciência.
Sua vida passou em um instante diante de seus olhos.
Pôde ver-se criança em um lar equilibrado, harmonioso, com pais amorosos, humildes, mas honestos e trabalhadores. Viu seus irmãos queridos. Estava numa família feliz, tinha tudo para vencer e ser feliz.
Pôde ver também vidas passadas e os erros que cometera, tendo inclusive repetido o mesmo ato em três outras encarnações.
Viu o compromisso feito com os espíritos superiores encarregados de sua reencarnação recente, afirmando na ocasião, que iria ser diferente, pois não se afastaria da espiritualidade e com certeza, ia ser um homem de bem e ia respeitar e amar o maior presente que Deus lhe dera: A vida!
Finalmente o torpor que se segue ao desencarne começava a dar lugar ao discernimento e conseguia perceber o que havia feito.
Logo se viu chorando e gritando desesperado se sentindo cercado pelo desprezo daqueles que como ele, julgavam-no e condenavam-no gritando aos seus ouvidos: - Suicida! Suicida!
Começou então a ter consciência, que aquele sofrimento já durava anos e seus olhos estavam sempre molhados de lágrimas e sua voz era rouca de tanto gritar.
Com o passar do tempo teve a certeza de que se encontrava preso dentro de si, num vale, aquele conhecido como Vale dos Suicidas. Sim, ele existe, mas é dentro de nós.
Então pela primeira vez, lembrou-se tirara a vida pelo que ele chamava de amor. Morrera por amor. Amava Rosinha, mas ela só o queria como seu brinquedo, um joguete em suas mãos e ele achou que a machucaria e que também fugiria da dor do desprezo, sacrificando o bem mais precioso que tinha: sua vida!
Agora chorava copiosamente, mas não mais de mágoa, de raiva, de medo, mas de tristeza, com o coração cheio de arrependimento. Clamou por Deus, lembrando as palavras e a súplica: “Pai afasta de mim esse cálice” e “Pedi e obtereis”.
Na sua súplica agora havia o arrependimento sincero e a consciência de que o fato falho fora só seu e por isso implorava o perdão pelo desperdício da vida.
Foi então que os risos pararam, os xingamentos e gritos calaram e uma luz, um silêncio, uma paz reconfortante, tomou conta de tudo.
À sua frente via um ser iluminado emanando uma energia boníssima, que era como um bálsamo em sua alma.
Ele perguntou: - Quem és?
(M) - Teu mentor.
(Ele) - Onde estavas que não me socorrestes, quando precisei?
(M) - Primeiro, não tivestes a humildade de pedir e também não estavas pronto.
(Ele) - E agora?
(M) - Agora meu filho, começas com tua redenção. Nova oportunidade, através de nova reencarnação te será dada. Prepara-te, pois não será fácil, mas terás sempre meu apoio e do Pai, que só quer tua felicidade.
Ele então sentiu que não existia mais o Umbral, mas um mundo cheio de esperanças e trabalho para a realização da grande reforma interior.
Então cheio de gratidão ajoelhou-se e emocionado agradeceu ao Pai zeloso o amor infinito, por ele e aos seus filhos.
